Minhoca na Terra do Bonsai
Era uma minhoca cor-de-vento,
um verme de alquimia translúcida.
Ela sabia do barro mais que os deuses do bonsai.
Enquanto podavam galhos com tesouras de prata,
ela bebia a umidade das raízes —
água verde, segredo antigo.
O bonsai pensava ser árvore.
A minhoca sabia ser mundo.
Ela serpeava entre veios de argila,
desenhando mapas que ninguém lia.
Às vezes, riam dela:
— Coitada! Vive na escuridão!
E ela, feliz, respondia com silêncios
e fábricas de húmus.
Um dia, o jardineiro —
homem de gestos precisos —
quis podar até a sombra.
Mas a minhoca prosseguiu
fazendo do avesso sua bandeira.
Ela não crescia para cima:
crescia para dentro.
Era uma linha torta
num universo de retas.
Psicodelia de húmus e microcosmos:
ela viajava sem sair do lugar.
Enquanto o bonsai sonhava com o céu,
ela beijava o centro da Terra.
E, de repente, o vaso quebrou.
Raízes respiraram fundo.
A minhoca, então, sorriu —
pois agora o infinito
era questão de perspectiva.
(Algo me diz que somos todos
minhocas em vasos alheios…
Será?)
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